Outra nova seção: Resenhas

Inauguro outra nova seção, de resenhas dessa vez. Porque eu leio tanto, tanto... Tenho que compartilhar isso. Voilá.

~A menina que roubava livros~

“ERA UMA VEZ um homenzinho estranho, que decidiu três detalhes importantes sobre sua vida:
  1. Ele repartiria o cabelo do lado contrário ao de todas as outras pessoas.
  2. Criaria para si mesmo um bigode pequeno e esquisito.
  3. Um dia, ele dominaria o mundo.”

Essa é a melhor definição de Hitler que eu já encontrei em um livro ambientado na Segunda Guerra. E olhe que já li muitos.

Se você pretende ler A menina que roubava livros, um bom conselho: ignore a Morte. Foi uma sacada publicitária do autor colocá-la como narradora, assim que a frase na contracapa “Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler” chama a atenção. Chamou a minha. Mas esse foi também o maior tiro pela culatra que eu já vi, porque da primeira vez que peguei o livro pra ler, foi justamente a narradora que me fez perder a vontade. O livro começa com uma história bizarra sobre cores, branco, preto, vermelho, e na verdade parece que a morte usou LSD. Da primeira vez, li o começo do prólogo e repus o livro na estante. Pensei se tratar de apenas mais um best-seller que galgou a esta posição pela excentricidade. Algo assim como a roupa nova do imperador – só os burros não enxergam, então você diz: “Nossa, como é bom!” sem ter entendido nada.

Mas a repetição dos elogios ao livro por pessoas que eu tenho em estima, algumas com gosto literário similar ao meu, convenceu-me a rever meus conceitos (ou pré-conceitos) e tentar de novo. Valeu a pena.

Um colega disse “Depois das primeiras 50 páginas, o livro fica bom”. Qualquer coisa nesse sentido. Ele não disse pra mim, mas eu ouvi, e atesto a verdade do fato. E você não perde muito, porque algumas dessas 50 páginas estão em branco entre os capítulos, e ainda sobram quase 450 páginas boas pra degustar. Boas quase todas, claro, nada pode ser perfeito. Volta e meia a Morte dá seus pitacos, e eu tinha vontade de fazer uma careta pra ela.

A história pode ser resumida assim: Liesel Meminger é filha de um comunista na Alemanha nazista. Tem a sorte de ser adotada por pessoas boas (ainda que sua mãe nos ensine um bocado de palavras rudes em alemão – como se dizer “docinho” nessa língua já não parecesse rude!), os quais, posteriormente, abrigam um judeu, Max Vandenburg. Liesel, no começo, nem sabe ler, mas aprende e se apaixona pela leitura. Os “roubos” de livro são discutíveis – ao menos os primeiros dois ela com certeza não furtou. Mas ela realmente rouba coisas – comida, numa Alemanha faminta – junto a seu melhor amigo (e namoradinho) Rudy Steiner.

Esse garoto é o meu personagem favorito no livro, decididamente me apaixonei por ele. E o maior golpe que levei foi saber do seu destino, já pelo meio do livro. Ele tem cinco irmãos, um mais velho e quatro meninas, e seu pai é um alfaiate que é filiado ao partido nazista, mas não que ele mesmo seja nazista, por assim dizer. Caso contrário Rudy teria morrido ao imitar o corredor americano Jesse Owens – um que ficou famoso por botar a gente do Führer no chinelo nas olimpíadas de Berlim e fazê-lo explodir de raiva, porque era negro.

Os personagens são inesquecíveis, embora o livro falhe em realidade, pois se na Alemanha daquela época houvesse tantos Hubbermans, Steiners, Liesels, Walter qualquer coisa, bem... ela não teria sido a Alemanha de Hitler. Não se pode esperar rigor histórico de uma ficção.

Os livros que Liesel leu... Dá vontade de ler com ela. Mesmo O Manual do Coveiro. Dá vontade de ouvir o acordeão de Hans Hubberman, e de tirar Max do porão...
E apesar da dureza da Morte, ela solta o fim do livro aos pedaços, aqui e ali, assim o choque não é tão grande.

Concordo agora com as pessoas que disseram que o livro era bom. Até as “cores” não me parecem tão antipáticas. Pode ler.
Apenas não vá roubá-lo. Verstehst?

p.s.: A tradução tem umas pequenas falhas. Tipo traduzir as pragas do inglês por “Jesus, Maria, José”, como se os personagens fossem de uma cidadezinha do sertão nordestino. Mas dá pra aguentar.

Outro p.s.: Não sei porque, mas eu tinha na cabeça que o livro tinha uma autora mulher. Uma colega minha também guardou essa impressão. Não: é um homem australiano, Markus Zusak. Só pro caso...


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