A vaga que despedaçou um rochedo


Curiosamente não há mar em Rio Pardo, cidade natal do maior Almirante de que a nossa história já teve notícia.
João Cândido Felisberto nasceu em 24 de junho de 1880. Filho de ex-escravos, teve um pouco mais de sorte do que era de se esperar na sua situação: enquanto outros eram recrutados pela polícia, ele foi para a Marinha bem jovem, pela indicação de um “alta patente”.
Se ele recebeu tratamento melhor que os outros, isso não o impediu de indignar-se com a situação dentro da Marinha do Brasil daquela época. A comida era intragável e ainda havia os castigos corporais. O soldo era baixo e a higiene, precária. 
Foi então que a Marinha resolveu modernizar-se. Vão aumentar o soldo? Acabar com a chibata? Se um marinheiro fizesse essas perguntas receberia 50 chibatadas pela insolência. Eles iam comprar navios dos ingleses, porque na Inglaterra havia navios melhores. Mas na Inglaterra também havia marinheiros e operários com uma consciência maior de seus direitos... 
Em 1908, João Cândido foi para lá, a fim de acompanhar os últimos passos da construção dos navios de guerra encomendados, e ser treinado para fazê-los funcionar. Então ele entrou em contato com o movimento sindical inglês. Soube que os marinheiros britânicos já não sofriam castigos corporais desde a revolta no navio Bounty, no século XVIII. Também soube do encouraçado Potemkim e, como tantos outros, descobriu que era direito lutar por seus direitos.
Eles voltaram para o Brasil cheios de bons navios e cheios de ideias. Os oficiais, todos brancos, acostumados com as relações de escravidão, subestimaram a capacidade humana de indignar-se dos marujos, negros em sua maioria. Continuaram a estalar as chibatas em suas costas, enquanto a revolta se avolumava em seus corações.
Então a revolta tomou corpo. Era 22 de novembro de 1910, e o corpo era o do marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes, açoitado mesmo depois de desmaiado no dia 16. E a alma... a alma era João Cândido.
Semianalfabeto, ele comandou um motim e uma manobra que virou os navios São Paulo, Bahia, Minas Gerais e Deodoro para o Rio de Janeiro, e para lá apontou seus canhões. Isso lhe rendeu o apelido de Almirante Negro. Deu alguns disparos de aviso.
“Tem V. Exª. o prazo de doze (12) horas, para mandar-nos a resposta satisfatória, sob pena de ver a Pátria aniquilada”. Assim terminava a carta que os marinheiros enviaram ao presidente Hermes da Fonseca, exigindo melhores condições de trabalho e o expurgo da chibata.
Por quatro dias os navios miraram a cidade, enquanto o no Congresso eles deliberavam. Finalmente concordaram com as condições dos marinheiros, e prometeram que não iam punir os revoltosos. Que estupenda mentira! Mal se rendeu e saiu do “Minas Gerais”, armaram para o Almirante negro, que logo foi preso junto a outros líderes da revolta e trancafiado num catre, com cal entrando-lhe pelas narinas. Quando a porta da prisão foi aberta, um mês depois, apenas João Cândido e um outro estavam vivos, dos dezoito que lá se encontravam.
João Cândido teve uma vida triste depois disso. Foi expulso da Marinha. Numa homenagem póstuma que lhe fizeram dois compositores na década de 70, a censura rebaixou-o de almirante para navegante, de marinheiro para feiticeiro, e os negros que apanhavam de chibata tiveram que perder a cor na voz de João Bosco para virarem santos.
Tuberculoso, o Almirante trabalhou na estiva até ficar muito velho, sob os olhos vigilantes da polícia e do exército. Por ser um “subversivo”, não durava muito tempo no mesmo emprego. Isso foi depois de ele ter sido internado no Hospital dos Alienados, louco devido à provação daquele mês no cárcere. Perfilando desgraças, houve também o suicídio de sua segunda esposa, em 1928, que o abalou muito. Há, além disso, notícia de que ele tenha aderido ao integralismo na década de 30. Sabendo-se que o integralismo era conservador ao extremo, chegando mesmo às raias do fascismo, é difícil acreditar que esse agitador tenha sido aceito pelos integralistas, ou mesmo se entusiasmado por essa corrente política. Mas João Cândido era acima de tudo um ser humano, e os humanos são imprevisíveis.
Ele morreu em 1969, aos 89 anos de idade, de câncer. Ainda era “excomungado” pela Marinha e não teve outro monumento além das “pedras pisadas do cais”. Mas desde 1910 não havia mais chibata. A escravidão acabara.

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