Indicação Wattpad: O Cheiro da Rua, de José Artur Castilho


Olá, queridos e queridas! 

Eu sei que não posto com tanta frequência quanto prometido aqui no blog, mas bem, posto quando me dá vontade. E tem uma ideia que eu já estou faz algum tempo, e hoje resolvi executar. Esse ano li muito mais no Wattpad do que livros físicos ou e-books de autores consagrados, e como eu mesma tenho obras na plataforma e acredito mesmo nela, resolvi fazer algumas indicações de obras de qualidade que eu venho lendo por lá.

Como não podia deixar de ser, inauguro a sessão indicando este livro de Ficção Geral, que provavelmente é o meu preferido dentre os concluídos que eu li na plataforma, e que você pode ler inteiro por este link




Odília de Bastos Silva. Registro geral: 6820115. 2ª Via. Data de expedição: 30 de novembro de 1999. Filiação: Rosália Araújo de Bastos e Edivaldo Martins Silva. Naturalidade: Belém – Pará. Data de nascimento: 28 de julho de 1926.

O que esperar de um livro que começa com a descrição de um documento?



Eu sei que a sensação de “ué” deve estar grande e você se pegou pensando se não clicou no link errado. Isto não era uma resenha sobre um livro de ficção? Pois então, eu também fiquei assim quando abri O Cheiro da Rua, mas – e creio que essa era a intenção – o parágrafo de abertura inesperado, que soou na minha cabeça narrado pelo Selton Melo, atraiu minha atenção e plantou uma pulga enorme atrás da orelha. Quem é Odília e por que estamos lendo o documento dela?

E logo descobrimos a resposta para essa pergunta. Ou melhor, não; descobrimos que ninguém nasce Odília, torna-se, parafraseando Simone de Beauvoir. Por que isso é tão importante? É só um nome!

Mas o que é um nome, afinal, se não uma vida inteira?

Ah, nós chegamos a entender isso ao longo da história. Como entendemos.

Se você é daqueles que prefere atropelar os detalhes e ler uma história cheia de ação e agitação, O Cheiro da Rua não é um livro para você. Ou talvez seja exatamente o livro que te fará mudar de ideia e aprender a apreciar as pequenas coisas. Uma experiência totalmente diferente das maratonas dos livros de aventuras, e treinará seus olhos e ouvidos para degustar literatura aos bocados.

Ler O Cheiro da Rua se assemelha um pouco à tarefa do observador de pássaros. É preciso ficar imóvel e manter os binóculos fitos no que está acontecendo no micromundo das aves, para não perder a batida especial de asas, ou aquele canto fenomenal com que o sabiá vai rasgar seu coração.  Ah sim, sim, e prepare-se para ter o coração rasgado – uma, duas, dezenove vezes. Deixo dois capítulos de fora, porque o autor nos dá uns repousos de felicidade.

Mas vamos à história. Vou ignorar a sinopse e contar com as minhas palavras; eu posso ter entendido errado; se você já leu o livro e quiser deixar sua percepção ou interpretação nos comentários, está convidado.

O livro é sobre um cachorro. Bem, não exatamente sobre ele, mas o cãozinho – e não darei seu nome para não estragar um dos momentos mais ternos e engraçados do livro – certamente é a força motriz que perturba as vidas paradas de Edmundo, um garoto pré-adolescente, e Odília, uma senhora em situação de rua.

“Parada” talvez seja injusto. As vidas deles, quando os encontramos, acabam de ser perturbadas por outras questões, na verdade. Odília “ganhou” uma nova identidade... junto a alguns objetos que se gastarão em suas mãos e ficarão para trás. Edmundo – e vou chamar ele de Ed, porque ele é meu amiguinho – acaba de perder uma parte de sua identidade... bom, não exatamente isso. Ele perdeu um pilar importante, talvez o mais importante ou o derradeiro, de sua vida: a tia Noemi. Noemi se desprendeu da família da irmã Dulce, para cuidar da própria vida. Ou de outras vidas, enfim. Acontece que ela era a cola que ainda conservava alguma união na minguada família Batista, formada por Dulce e Ed.

E agora Ed está sozinho.
Mas o que repousava nas linhas eram apenas letras cursivas, nada mais. A carta se esgotou assim que a última curva da palavra "saudade" tocou o papel.
  
(E Dulce... bom, ela está sozinha há muito tempo).

Nesse contexto, Ed e Odília se conhecem. Sendo bem honesta, não lembro bem como eles se conhecem. Mas lembro quando eles se conectam. E essa conexão acontece em torno de um  filhote canino que Ed encontra na chuva.



Aliás, a chuva, a rua, o rio permeiam o livro do começo ao fim, como entidades inanimadas sempre presentes, sempre espreitando, e talvez nos narrando a história que estamos assistindo. Sim, “assistir” é preciso, porque O Cheiro da Rua é um livro bastante visual, em que pese as intromissões do narrador, que, por vezes, fala com os personagens, opina sobre suas ações. São intromissões breves, porém, assim como são breves os diálogos, e reforçam a impressão de que O Cheiro da Rua é feito do encontro dos silêncios e da solidão de cada personagem.

A solidão de Odília é a de quem foge do passado. A solidão de Amadeu é a de quem foge das responsabilidades. A solidão de Dulce é auto imposta. A solidão de Conceição é a que ela espera que acabe, e que preenche com a fé. A solidão de Edmundo é a de quem foi deixado só.



E em torno desse pequeno eixo narrativo – o cão sem nome e depois com nome – os personagens vão se revelando. O minúsculo círculo formado por Edmundo e Odília é envolvido por um círculo maior, formado por suas escassas famílias – ou os cacos delas. E nós passamos a conhecer, em capítulos como retratos, um pouco de cada um. A raiz da dor de Odília e o passado de que ela foge nos é revelado aos poucos, e sentimos a faca entrando lentamente. De Ed descobrimos sua dificuldade para se expressar, e um pouco sobre os motivos que desenvolveram esse bloqueio nele.

E a sequência de acontecimentos do livro nos conduz por essas linhas. O passado alcança Odília e Ed é obrigado a se expressar. No primeiro caso, é uma nova chance; no segundo, um último esforço, um atirar-se na batalha antes da rendição.

Retroceder também é um ato de mudança.

Não há mais muito a dizer sobre o enredo. O Cheiro da Rua é um livro curto, em que pese complexo, em que pese cheio de conteúdo, nas minúcias que temos a observar. Flashbacks, entrelaçamentos com outros textos, com canções, alternância entre cenas passadas e presentes. Muito mais que uma história, é um quadro que se constrói diante dos nossos olhos, um mosaico, mantido junto com aforismos que extravasam os limites da obra.

Amadeu não sabia que felicidade e contentamento se confundem e, naquele instante, julgou-se feliz.

Isso somos nós leitores nas cenas bonitinhas do livro... Somos nós leitores vendo a amizade de Edmundo e Odília surgir, sentindo intimamente que aquilo não vai dar certo?
Foi bom enquanto durou? Talvez. Não temos como saber, porque o futuro dos protagonistas – bem, principalmente do Ed – não faz parte da história. Ela acaba antes, e o que foi feito desse moço, só nos cabe adivinhar.

Só posso convidar o leitor que tem apreço pela delicadeza a vir conhecer esta obra com gosto de Vidas Secas e cheiro de Central do Brasil (esta observação é dos colegas leitores), num invólucro de Clarice Lispector e com uma dama da triste figura se arrastando pelas páginas. 


Ah sim, páginas sim. Mesmo que O Cheiro da Rua não seja livro físico – ainda – ele está pronto para ser. E quem já leu, provavelmente, concorda comigo, e está convidado a deixar aqui seus comentários ou indicações também.

Se quiserem conhecer um pouco mais do livro, deixo com vocês os links da página do livro no Facebook, do grupo de leitores, e um teaser curtinho do livro:




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