Encontrando o significado daquela expressão difícil

Traduzir não é a mesma coisa que falar um idioma. É uma excelente forma de praticar um idioma, entender seus mecanismos de funcionamento, de aumentar seu vocabulário, mas não são a mesma habilidade.

Começa que quanto menos uma pessoa precisatraduzir” na mente, para sua língua nativa, as frases de um outro idioma, ao se comunicar nele, mais fluente ela é considerada. E de fato, a comunicação vai ficando menos espaçada e rompida a medida que eliminamos esse processo mental de transição, e se torna até maisdifíciltraduzir, isto é, você compreende tão bem a expressão na língua original, em todos os seus sentidos, que demora um tantinho mais para achar uma expressão perfeitamente equivalente na sua língua nativa.

Além disso, para se comunicar com fluência em um idioma, você precisa de um vocabulário mínimo, que varia de língua para língua, mas costuma ser fixado entre 10.000–35.000 palavras, dependendo da fonte. Isso porque, no dia a dia, costuma-se tratar dos mesmos assuntos, então o vocabulário médio de uso diário de qualquer língua é limitado. Aqui se apresentam como dificuldade as expressões idiomáticas, mas explorar essa questão foge do escopo do presente esboço.

Quando falamos em traduzir, porém, o buraco é mais embaixo. Seja tradução técnica ou literária, você vai esbarrar com vocabulário que não se usa no dia a dia. Muito ou pouco, ele estará , e enquanto para assistir um filme ou ler um livro ou até manter uma conversa você não precisa compreender 100% do que está sendo dito, muita coisa se adivinha pelo contexto ou pela intuição, em tradução não funciona assim. Você pode até adivinhar o significado das palavras, mas seria irresponsabilidade transcrever o resultado da sua adivinhação, sem verificar se ela está correta, porque ao traduzir você precisa preparar o texto, na língua de destino, para os outros entenderem, pessoas que têm bagagens intelectuais diferentes da sua.

Cada mínimo detalhe, a posição de cada vírgula é importante.

Agora, surpresa: você não vai achar tudo o que você precisa no dicionário bilíngue. Mesmo que você tenha vários dicionários muito bons, nenhum deles vai conter todos os possíveis sentidos de todas as palavras (e abreviações) de uma língua, porque as línguas estão em constante evolução.

Não estou falando aqui do polêmico debate sobre norma culta vs. linguagem coloquial, mas é um fato que novas palavras aparecem a cada dia com as novas experiências, tecnologias, etc., que surgem na sociedade, e começam a ser usadas, e precisamos traduzi-las.

Um grande exemplo são os memes; eles estão por toda a parte atualmente, fazem referência a situações específicas, e às vezes não têm ligação com o sentido literal da frase usada, isto é, uma tradução ao da letra não captaria o espírito do meme. Ora, eles começam a ser inseridos até em livros de ficção ambientados na atualidade, que fazem parte da atualidade, e logo se apresentarão como desafios aos tradutores (se não se apresentam).



Da mesma forma, palavras ficam obsoletas, e se você estiver traduzindo um texto antigo, pode ser difícil encontrar os termos dele.

Todo esse textão foi para chegar na pergunta: o que fazer quando não encontramos no dicionário bilíngue a palavra ou o sentido que precisamos?

Bem, a seguir contarei um pouco do que eu faço em tais situações. São dicas bem básicas, na verdade, se você traduz algum tempo, provavelmente conhece e usa todas elas, ou a maioria. Mas como essas estratégias podem ajudar um iniciante, não custa compartilhar

1. Dicionário de significados 

Se você domina bem a língua de origem e consegue ler nela sem problemas, e não achou a tradução de alguma palavra, você pode procurar a definição dela em algum dicionário monolíngue mesmo, e, sabendo o que aquela palavra expressa, fará o raciocínio inverso, buscando na sua cabeça o nome para aquela coisa, ação, sentimento, etc. na língua de destino.

Eu costumo usar muito esse processo em tradução de expressões ou exclamações do russo para o português. O russo tem algumas partículas que não têm propriamente um significado ou tradução fixa (ведь, же, так, ли), mas aparecem bastante na linguagem coloquial (e, por isso, em diálogos de ficção) para expressar surpresa, espanto, convicção, etc. A busca por uma expressão equivalente em português para cada caso concreto faz com que essas partículas sejam traduzidas de forma bem variada.

Também uso bastante em verbos com prefixos, que muitas vezes o dicionário bilíngue não traz.


2. Wikipedia

Se der para entender que a palavra que você está procurando é o nome de alguma coisa, desde um objeto até uma teoria, você pode procurá-la na Wikipedia. A confiabilidade do site como enciclopédia nem sequer entra na questão aqui. O que você vai fazer, depois de ter encontrado o termo que estava pesquisando, é procurar a barra lateral e olhar no “em outros idiomas”. Se der sorte, vai encontrar seu idioma de destino ali e, consequentemente, o termo na língua que você estava procurando.



3. Busca do Google (ou Yandex, Bing, etc.)

Não estou falando aqui do Google Tradutor, embora ele também possa ser consultado como dicionário, às vezes. Para alguns idiomas ou pares de idiomas, o serviço tem melhorado. Para russo - português e vice-versa, continua ainda bem deficiente.

Mas simplesmente digitar a palavra ou expressão no campo de busca do Google pode te trazer resultados interessantes. Além de levar a dicionários (os mais obscuros) e glossários específicos da área com que você está trabalhando (medicina, informática, direito, etc.), pode trazer artigos em que a palavra se encontre e cuja leitura pode te ajudar a entender do que se trata.

Acredite, às vezes essa é a única opção.

Antes de ler esses artigos, porém, você pode clicar na aba “Google imagense encontrar os resultados visuais da pesquisa. Se for um objeto, grandes chances de você encontrá-lo ali. Mesmo que você não conheça o nome do utensílio, planta, roupa, etc. em português, você pode salvar algumas imagens e usá-las para ampliar suas possibilidades de conseguir ajuda em fóruns, especialmente se a língua da qual você está traduzindo não é muito comum, porque pela imagem os colegas tradutores vão poder te ajudar independentemente da língua estrangeira com que eles trabalham.

4. Perguntar




Se a internet não te oferecer a resposta pronta, você sempre pode recorrer às pessoas. Na verdade, você pode partir para este passo antes de todos os outros, mas se a cada três palavras traduzidas você pergunta uma, bem, serão as outras pessoas que estarão traduzindo o texto para você, não é?

Você pode perguntar para nativos da língua, gente que a fala num nível mais avançado que você, ou para outros tradutores, em fóruns de sites especializados como o Proz ou o TranslatorsCafe, ou ainda em grupos de tradutores no Facebook. alguns bem ativos, com gente prestativa.

Além das dicas sobre onde procurar, também algumas questões sobre como procurar.

Às vezes a palavra faz parte de uma expressão fixa, ou de um conjunto de palavras; no português temos as locuções adverbiais (com certeza, sem dúvida, de maneira nenhuma, etc.), em inglês os phrasal verbs, cujo significado é dado pelo verbo + preposição que vem a seguir (get up, take off, etc). Procurar as palavras isoladamente, nesses casos, não retornará o significado desejado. Assim, se você está buscando por uma palavra, e a tradução ainda não está fazendo sentido, comece a buscar a palavra junto com as outras que a estiverem cercando, especialmente se forem adjetivos. Em russo, por exemplo, existe oбабье лето” (bábie liéto), que significaveranico” (estiada que ocorre em períodos chuvosos, com dias de muito sol e calor). Se fosse procurar as palavras separadamente, porém, encontrariaбабье”, que no máximo poderia me retornar um adjetivo tipofeminino” (de баба, mulher em linguagem rural ou vulgar) eлето”, verão. Sairiaverão feminino”, o que não faz muito sentido.

Ampliando essa noção, chegamos à importância do contexto. Se você for perguntar o significado de uma expressão, para nativos ou tradutores, tanto faz, é importantíssimo fornecer o contexto, porque muitas palavras variam de significado e mais ainda de tradução, dependendo da frase em que forem usadas. Mesmo quando você for procurar no dicionário, observar o contexto é sempre importante. Às vezes o mesmo termo tem muitos significados, em diversas áreas. A palavraórgão”, por exemplo. Na música, se refere a um instrumento. Na medicina, a uma parte do corpo. Na área jurídica, se refere geralmente a uma instituição. Simplesmente olhar a palavra no dicionário e pegar o primeiro significado que aparecer não vai resolver em todos os casos.

Por fim, é preciso considerar que às vezes você não está achando a expressão porque algo de “erradocom ela. Algumas possibilidades são:

Erro de grafia (proposital ou não): é uma coisa até frequente em livros — e possivelmente filmes — quando o autor ou roteirista tentou reproduzir sotaques ou a linguagem de gente do povo. Suponha que você está traduzindo um texto do português para o inglês, e o autor quis retratar um diálogo fiel à vida real entre duas pessoas de pouca instrução. no diálogo aparecem palavras como pobrema, iorgute, largato, estrupo. Pode até ser que algum dicionário traga esses termos e redirecione você às versões dessas palavras na norma culta; de modo geral, porém, isso não acontecerá. Um tradutor nativo do português vai reconhecer as palavras, a despeito dos “erros”, mas se o tradutor não é nativo, e não é familiar a eles, vai depender de uma intuição e do contexto para adivinhar o que o autor quis fazer.

Nome de alguma pessoa ou coisa com modificação: Isso aparece muito em textos de humor, sátiras. Quando o autor tem em vista falar de pessoas, muitas vezes ainda vivas, mas para não dar problema, “disfarçao nome deles. Isso aparece com frequência nos gibis da Turma da Mônica. Também é feito com marcas, para evitar violação de direitos e merchandising. Um exemplo desse segundo caso era o que faziam no seriado adolescente iCarly, em que os celulares, notebooks e outros aparelhos eletrônicos dos personagens eram da marca “Pera” (pearphone, pearbook, etc), numa clara alusão à Apple (Maçã), tanto que os aparelhos tinham o símbolo de uma pera.

 


O fato é que os disfarces assim feitos são propositalmente precários, então é possível ao tradutor detectar e dar o jeito dele para traduzir.

Expressão incompleta ou modificada: A maioria das línguas tem provérbios e expressões idiomáticas que constituem uma ampla fatia do seu léxico e, por si mesmas, são um desafio de tradução, e até mesmo de compreensão. Imagine um estrangeiro tentando entender a brincadeira que os humoristas fizeram neste vídeo:



Em alguns casos, o desafio fica mais complexo, porque, ao empregar no texto o autor omite parte da expressão, por fluidez do texto ou até por efeito humorístico, pressupondo que ela seja do conhecimento do público. Como foi feito no diálogo no fim do vídeo, em que um dos atores pergunta:

— O que é que você fazendo, hein?

Pavê.

 …mas é pavê…?

Não é preciso completar a piadinha. É aquele velho ditado, “Para bom entendedor…”.

Se a expressão estiver apenas incompleta, é possível que o tradutor a encontre, buscando a metade disponível. Mas se estiver modificada, a coisa fica mais complicada. Suponha-se que um autor use a expressãodescascar o abacaxi”, que significa resolver uma situação espinhosa e complicada, mas como ele tem em vista uma situação que, ao contrário, é fácil de resolver, jogue com a expressão e fale em “descascar o tomate”. Não importa como busque, nesse caso, o autor não vai achar “descascar o tomate” em lugar nenhum, ou não com o sentido dado pelo autor, porque essa foi uma inovação dele. A brincadeira pode ser difícil até para um nativo desvendar

Conclusão ou alusão que parte de uma premissa de conhecimento comum: Essa é realmente complicada de detectar. Ontem assisti uma aula online sobre análise de texto, e a professora comentou sobre o trecho de um poema de Pushkin em que ele diz algo nas linhas “Em Paris não pão pretoruim viver em Paris”. As duas frases, aparentemente, não têm conexão; uma não decorre logicamente da outra, a menos que você tenha o background cultural para saber que os russos adoram pão preto, e por isso a ausência desse pão em Paris tornaruim” a vida na cidade para eles.

É verdade que esse exemplo é um problema mais de compreensão do que de tradução propriamente dita. Às vezes esses problemas coincidem, porém. Uma dia desses eu estava vertendo meus próprios contos para o inglês, e um personagem, o cliente de uma loja, que é chamado de doutor pelo vendedor que o atende. Depois, a narração se refere a ele ironicamente como doutor sem doutorado. Não palavra difícil na frase, e ela é usada no seu sentido literal, porém a carga de significado que ela traz e, por conseguinte, a própria presença do destaquesem doutoradonão se justifica e é um enigma para quem não conhece a polêmica brasileira em torno do título de “doutor”.

Essas dificuldades elencadas são coisas sutis, e somente com uma combinação de experiência, intuição, e conhecimento da cultura em que nasceu o texto a ser traduzido é que o tradutor conseguirá superá-las. O conhecimento da língua de destino também é muito, muito importante, que não basta ao tradutor compreender um texto, ele também precisa ser capaz de torná-lo compreensível, como destacado no início desse artigo.

A parte boa é que, quanto mais traduzimos, pesquisamos, lemos e batemos cabeça em cima de termos complexos, mais essa experiência e esse conhecimento cresce, e vamos ganhando espaço para usar essa intuição com menos receio de errar.

E justamente nessa evolução está o encanto de traduzir, não é verdade?



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